É engraçado esse período "pós grande desafio". A gente se dá uma espécie de férias, treina menos, dorme mais, comete mais abusos e algumas vezes até "enfia o pé na jaca".
Ontem fui a uma festa com amigos do trabalho - não corredores. E foi delicioso. Primeiro porque são muito divertidos, depois porque estávamos precisando dessa catarse e também porque tinha o show do Nando Reis (que eu adoro).
E é tão bom quando a gente se percebe feliz e curte a vida como se fôssemos adolescentes - com mais sentimento, menos medo e menos encanação. Sei que me diverti e voltei para casa leve...
Mas hoje não queria perder a natação. Já estou sem correr...
Claro que estava cansada, que lutei para sair da cama, mas fui. Claro que meu rendimento não foi lá essas coisas, mas fui lá e fiz. No final a sensação não é exatamente de "dever cumprido", mas de prazer. Prazer que eu procuro sentir em tudo o que faço...
Minha vida também tem coisas chatas. Também faço coisas por obrigação, porque são necessárias.
Mas nos momentos de prazer, eu me entrego. Seja correndo, rindo com os amigos, nadando, conversando com os filhos... Essa é a vida que vale a pena ser vivida!
Estou feliz também porque meu amigo Antônio Colucci me convidou para correr o Circuito das Estações - Etapa Verão no próximo domingo, no Pacaembu. Estou sem treinar, só fazendo natação, e sentindo menos dores na coxa. Vamos ver o que vai dar...
Engraçado que eu liguei para meu ortopedista, pra dizer que estava fazendo natação - e perguntar se poderia correr - e ele disse: "Sei de tudo o que você está aprontando. Eu leio seu blog!" Já não posso nem mais esconder as coisas dele, rsrs.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 00h22
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... preciso de fôlego...
Hoje comecei minha natação. Estava ansiosa para isso. Nem ter chegado tarde em casa ontem, por causa de trabalho, nem o tempo chuvoso em São Paulo me desanimaram.
Cheguei e me apresentei ao professor, que pediu para eu nadar para ele avaliar como estava.
Eu nado bem mais ou menos - mais para menos do que para mais.
Mas fui lá, toda empolgada.
E cadê o fôlego de maratonista que estava aqui?
Nossa, como achei difícil atravessar a piscina (não sei quantos metros tem). Claro que estava meio afobada, gastando mais energia do que o necessário. Além disso, confesso, tenho uma certa aflição de ficar muito tempo com o rosto na água e acabo respirando a cada braçada.
Na segunda ou terceira vez que atravessava a piscina, pensei: "Que saudade da corrida. É muito mais fácil. Acho que esse negócio de natação não vai dar certo."
E o professor falando: "Vamos lá, mais uma vez..."
Corrige daqui, corrige dali. Coordena braço, relaxa pescoço, rosto olhando para o fundo da piscina, bate menos a perna e aumenta a amplitude, usa mais a coxa, o braço não pode cruzar, estica mais os braços, respira dos dois lados... É muita coisa para eu pensar ao mesmo tempo.
O professor explicou que na natação eu tenho de respirar diferente da corrida. Aliás, existem muitas diferenças entre as atividades. Mas elas se completam e vai ser uma boa se eu conseguir conciliar as duas.
Na natação sou bem iniciante, como já fui na corrida, quando olhava o pelotão de corredores mais experientes à frente e sonhava um dia estar lá.
Bom, não sou das primeiras, mas meu bloco já não é o último. Além disso, hoje eu corro maratona. Evolui.
E quer saber? Adoro aprender, adoro um desafio.
No final da aula de natação, o sentimento de que "não iria dar certo" já havia se dissipado e estava adorando aquilo tudo - mesmo com a cãimbra nas duas panturrilhas bem no finalzinho.
O melhor: sem o impacto da corrida, na água minha coxa esquerda não doeu nada (estou com uma tendinite de quadríceps). Também veio aquela sensação boa de energia após o exercício.
Não, não vou abandonar a corrida. Ela continua sendo a primeira em minha vida.
Tenho certeza de que esse meu flerte com a natação vai me fazer voltar melhor para a corrida...
P.S. Acabei de lembrar que quando corri minha primeira prova (antes de começar a treinar efetivamente), nos 100 primeiros metros pensei: "Acho que esse negócio de corrida não vai dar certo..."
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 11h16
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... a força da amizade entre corredores é inexplicável...
Como pode pessoas que nunca se viram na vida, se encontrarem e conversarem por horas como velhos conhecidos?
Bem-vindo ao mundo da corrida!
Corredor é isso: quando um cruza com outro no parque deseja bom dia; oferece um copo de água salvador no meio de uma prova difícil; acompanha e faz você chegar quando não existia mais força para continuar...
Nessa segunda, em São Paulo, encontrei velhos e novos amigos corredores. Muitos deles conheci pelo Twitter. Formamos até um grupo: somos o Twitter's Run.
E existem tantos outros amigos corredores maravilhosos, que têm aquele brilho especial no olhar...
Não sei como nem porque - talvez o sentimento dispense explicação -, mas sei que nós transpiramos felicidade em nossos encontros.
Essa é a vida que vale a pena ser vivida. Simples assim.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 01h33
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... se eu tenho uma meta, é melhor planejar...
Me enrolo com o que tenho de fazer e, às vezes, sinto que não dou a devida atenção a quem merece – isso foi ontem. Daí que hoje já não acordei de muito bom humor.
Mas era dia de natação do Antônio, quando eu aproveito também para fazer musculação. O clube fica uns quatro quilômetros de casa, coisa de 10, 15 minutos em um dia normal. Mas São Paulo nunca tem dias normais.
Levar mais de 40 minutos para percorrer essa distância e perder a aula do Antônio me deixou ainda mais irritada.
A única coisa boa foi que eu tinha levado a revista Contra Relógio e, no trânsito, consegui ler algumas matérias – aliás, acho que ali, em uma delas, comecei a querer muito mais uma coisa que eu quero e não sei se será possível realizar no ano que vem. Mas sabe quando você pensa “não sei como vou conseguir, mas eu vou”?
Para não perder totalmente a viagem, resolvi fazer uns 20 minutos de esteira. Comecei devagar, andando. Achando que já estava aquecida, resolvi correr. Não deu. Minha coxa dói, a ponto de eu mancar. Não preciso forçar, né? Não quero me machucar mais... O confortável para mim, hoje, foi andar a 6km/h, o que dá cerca de 10min/km.
Eu entro numa paranóia (até engraçada) de querer dizer para todo mundo que eu sou corredora, que acabei de fazer uma maratona e que estou andando apenas porque estou lesionada...
Sai da academia, entrei na secretaria de esporte do clube, perguntei por aulas de natação. A moça me apresentou os dias e horários, perguntei o que eu precisava fazer, peguei o boleto e paguei. Pronto: me matriculei na natação. É o que eu vou fazer nas próximas semanas. Andava com vontade de nadar (fiz recentemente uma matéria sobre natação, que me deixou ainda mais empolgada).
Se a coxa parar de doer, volto a correr às terças, quintas e sábados. Se tudo der certo, nado às quartas e sextas.
E começo a ter mais fé de que 2010 será um ano bom. Tenho de planejar mais. Mudar algumas coisas. Focar. E vou realizar!
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 13h47
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... esse foi o lado mágico...
No relato da Maratona de Curitiba faltaram imagens. Tenho fotos muito legais, mas essa é a que resume tudo.
Nesse momento provavelmente eu estava apontando para o pórtico de chegada, mostrando a ele o tempo de prova.
Talvez na hora do diálogo (contido do relato anterior):
- Quanto você fez?
- Olha lá, agora estou com 4h57m.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 01h00
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... é estar entre o mágico e o trágico... (parte 1)
Amigos mais experientes já me disseram que a gente só entende o que é correr uma maratona depois da quinta. Eu estou na metade desse caminho. E vou continuar até entender e dominar a distância.
No dia 22 de novembro de 2009, corri minha terceira maratona, desta vez em Curitiba (PR) - as outras foram Porto Alegre (em 4h04m, em maio/08) e Nova York (em 4h20m, em novembro/08).
Razoavelmente treinada e segura - principalmente depois de ter participado do Desafio dos 600K SP>RJ da Nike no mês anterior - cheguei à prova bastante tranquila e motivada. Talvez tenha minimizado um pouco as dificuldades do percurso, é verdade. Muitas pessoas haviam me falado o quanto era duro, mas achei que daria conta. E tinha em mente o tempo que eu queria fazer - pelo menos igual a Nova York.
Um motivo a mais de felicidade foi levar meu filho, de 8 anos. Durante a prova ele ficou com uma amiga de Curitiba, a Giovanna, que criou uma estratégia para me ver passar ao longo do percurso. Adorei a ideia.
Para criar um relato diferente, por sugestão de um amigo, levei um pequeno gravador e registrei as impressões e emoções da prova. Aqui vou reproduzir um pouco do que se passou na minha cabeça e o que aconteceu com meu corpo. As dores e as delícias da minha Maratona de Curitiba, a prova que me fez estar entre o mágico e o trágico.
5H30 DA MANHÃ
Já estou de pé, estou me arrumando. Consultei o ClimaTempo e vi que pode fazer 29 graus, com 80% de umidade. Isso me preocupou um pouco mais, porque ontem estava super fresco e hoje é uma incógnita. Acordei bem, mas um pouco mais preocupada do que os outros dias, afinal chegou a hora.
Daqui a pouco vou descer e tomar café da manhã, a largada é às 7h30. Não sei se eu senti um pouco minha garganta, se isso é desculpa para se eu não for bem... Mas, enfim, estou aqui para minha terceira maratona, com o coração na mão.
5H50 DA MANHÃ
Acordei o Antônio agora. Ele foi meio que reclamando, mas já entrou no banho. É sempre uma preocupação a mais trazer uma criança, mas eu queria muito que estivesse comigo. E ele está aqui, colabora. Sei que essa é uma hora em que eu devia estar mais concentrada para a prova... Mas daqui a pouco vou trocá-lo e vamos descer para o café da manhã.
7H29 DA MANHÃ
Estou aqui na largada, com a mão gelada. Um minuto para a largada, batimento cardíaco em 108. Feliz. Vou ver se eu chego... Ver se chego, não. Eu vou chegar. Mas quero dentro do tempo que eu me propus a chegar. Foi dada a largada. Vambora...
OS DOIS PRIMEIROS QUILÔMETROS
A prova tem mais gente do que em Porto Alegre, é mais movimentada... O sol está saindo. Passei pelo quilômetro 2 com pace de 5m30s/km (a orientação do treinador era fazer os primeiros quilômetros a 6m20s). Estou rápido demais. Vou tentar reduzir para chegar bem.
(conversando com outra corredora)
- De onde você é?
- Eu sou de Araucária, região metropolitana de Curitiba.
- Como é seu nome?
- Angelita.
- Quantos anos você tem?
- 41. E você?
- Meu nome é Yara, tenho 43. Você corre há quanto tempo?
- 13 anos. Essa é minha segunda maratona. A primeira foi aqui também emCuritiba, que eu completei em 3h50m.
- Uau! E agora, pretende fazer em quanto?
- Ah... Quero baixar o meu tempo.
- Tem alguma estratégia durante a prova?
- Eu gosto de fazer amizade, ir trocando ideias. Assim a gente não vê o tempo passar. Também penso em coisas que me dão alegria e força. Procuro pensar em minha mãe e em minha filha, de seis anos.
- Olha lá, já vem outra subida. Já deixamos para trás quase 4 quilômetros...
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 10h19
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... é estar entre o mágico e o trágico... (parte 2)
DO 6º ao 10º QUILÔMETRO
Daqui a pouco nós vamos passar de novo perto da largada. Estamos quase no quilômetro 7, fazendo um ritmo de 6m/km. Acho que ainda estou um pouco forte. Vou tentar diminuir. E por enquanto tudo tranquilo.
...
São 8h05 da manhã, termômetros marcando 22 graus, sol.
...
A gente acabou de passar por uma cadeirante, Angelina. Cara, é muito difícil. Essa é de tirar o chapéu. Para aguentar as subidas e descidas dessa prova...
...
Estamos no quilômetro 7, ansiedade ainda. Daqui a pouco vou tentar encaixar o ritmo e ir embora até o final. Agora me passou pela cabeça que eu continuo lutando contra minha natureza. Eu não tenho perfil de corredora. Eu tenho quadril largo, eu sei que isso dificulta...
...
Antônio!!! Olha a mamãe aqui! Lindo! (nessa hora fiquei babando pelo meu filho, conversando ainda com a Angelita, a corredora de Araucária)
...
Estamos quase nos 10 quilômetros. Devo fechar os 10K com 58 minutos. Está super bom.
...
Passei nos 10 quilômetros com um pouquinho menos do que 59 minutos. Estou precisando de água, para tomar meu primeiro gel, antes que a fome aperte.
CHEGANDO AO QUILÔMETRO 14
Minha amiga de Araucária apertou o passo e foi... Não vou dizer que meu joelho não está doendo, porque está doendo. Tá pegando o joelho, começou a dar pontada na panturrilha e um pouco do quadril esquerdo. Mas vou continuar. Vou tomar o ibuprofeno lá na frente e seja o que Deus quiser: 13 quilômetros e 900 metros, quase 14, 1h23m de prova.
ATÉ O QUILÔMETRO 19... E AS PRIMEIRAS DORES MAIS FORTES
Estou vendo minha amiga de Araucária. Mas eu não vou puxar para pegar ela, não. Vou ficar na minha. Os homens estão passando. Logo encontro os amigos. Tenho que estar muito concentrada agora. Vou aumentar o passo daqui a pouco.
...
Foi meu pior quilômetro até agora, pace de 6m23s. Estou fazendo essa média nos últimos. Mas na média geral ainda estou dentro dos 6min/km. No meu relógio acabou de marcar 15km, 1h30m certinho.
...
Se eu fosse elite e a TV tivesse transmitindo, o locutor diria assim: “Lá vem a Yara, mas com visíveis sinais de cansaço. Será que ela vai segurar?” Daqui a pouco vou tomar o remedinho para ver se passa esse desconforto do quadril. Quando a gente está correndo vêm esses delírios na cabeça, de que você é elite... Mas a cobrança é sua mesmo.
...
Dei uma baixada agora. Cansei. Vou andar só um pouquinho, para me recuperar. Não vou parar. Só dois minutinhos. Vou andar um pouco e puxar depois. É muito cedo para querer andar.
- Vamos lá, fôlego, respira. Você vai conseguir! Fé em Deus, acredita em você - alguém gritou.
O cara me deu uma força, agora eu vou continuar!
...
- Yara! E aí, tudo bem?
- Oi Luis. A gente se vê no final. Valeu!
Passou o Luis agora, meu amigo de São Paulo. Ele pegou na minha mão. Isso me deu a maior força. Era o que eu precisava. Impressionante como a gente precisa dessas coisas. Estou louca para ver o Antônio também. É de apoio que eu preciso. Fiquei arrepiada de pensar nisso. Fechei esse trecho em 6m37s: 17 quilômetros já completados.
...
Não dá para ficar pensando em quanto falta ou quanto já foi. Eu tenho que pensar em continuar a correr, correr. Melhorei um pouco nesse quilômetro, 6m10s. Está bom demais. Recuperei um pouquinho. Doem um pouco as costas, o baço. E lá vou eu.
...
Meu quadril ainda dói, como se tivesse em uma prensa. Daqui a pouco vou ver o que fazer: tomar gel, comer alguma coisa...
...
Estava me sentindo mais magra. Mas agora já voltei a me sentir gorda de novo. O passo fica curto e voltei a me sentir gordinha de novo.
PASSOS LENTOS, QUASE NA MEIA MARATONA
Estou no quilômetro 19 para o 20, é uma subidinha. Eu estou andando um pouco... Ah, parei, vai! Chega de me cobrar. Vou andar um pouquinho para me recuperar. Eu sei que eu posso. Estava indo super bem. Vou dar esse descanso e no 20 vou firmar, para ir até o fim. É claro que eu tenho um pouco de vergonha de falar que estou andando, mas vou andar. Quando chegar ali, naquele poste, vou voltar a correr para não parar mais, até o final.
...
Chegou o poste que me impus como limite, vou voltar a correr.
...
Oi, lindo! Mamãe está cansada... (encontrei outra vez o Antônio perto do km 21).
...
É muito sobe e desce. A tentação de andar é muito grande. A cabeça fica pedindo toda hora para andar. Estava indo bem, agora não sei não. Tentando pensar no treinamento, na prova da Nike, mas está difícil.
- Vamos lá garota! - gritou uma moça.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 10h18
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... é estar entre o mágico e o trágico... (parte 3)
A PARTIR DO QUILÔMETRO 22, FAZENDO CONTAS
Se eu quiser terminar essa prova em menos de 4h20m, tenho que correr agora. Tenho duas horas para terminar essa maratona. Faltam 20 quilômetros. Mais da metade já foi. Não estou cansada, mas minha perna está meio travada. Sei lá o que está acontecendo. Mas acho que é mais minha cabeça que está travada. As pessoas devem estar olhando com dó para mim, porque estou andando. Ou será que eu é que estou com dó de mim? Não. Eu estou curtindo, embora esteja com dor nas pernas, andando... Vou andar só até ali e depois volto a correr. Eu juro: agora, a partir do quilômetro 22, vou correr até o fim. Eu tenho de correr. Só faltam 20. E 20 dá para tirar de letra.
...
Mais uma vez caminhando. Está fogo. Minhas mãos estão formigando, meus lábios também, estou esgotada (minha voz é desoladora nesse momento). Tenho que tirar forças de algum lugar, sabe-se lá de onde. Tenho de completar em menos de 4h20m. Tenho de reagir.
...
(quinze minutos depois) Queria correr, mas não consigo. Está meio desesperador olhar o relógio, ver o tempo passando e você não evoluindo. Meu ritmo médio de prova até aqui é de 6m21s/km, é o que o treinador planejou, mas ainda faltam 16 quilômetros. Eu tenho de encontrar forças. Tenho vontade de chorar de desespero, de decepção. Eu coloco na cabeça uma coisa que eu não vou poder cumprir.
...
Eu não sei se dói tudo ou se eu não estou sentindo mais nada. Sei que estou cansada. 3h04m de prova, 28400 metros percorridos. Se fosse dar tudo muito certo, eu tinha de terminar em... Não sei se eu vou conseguir correr mais.
NO QUILÔMETRO 30, UMA PEQUENA REAÇÃO
(Fiz o quilômetro 30 em 6m02s e depois voltei a andar). Estou tentando me motivar, pensar que minha vida depende desses 11,5 quilômetros finais, mas está fogo. 3h20m de prova e eu estou muito cansada. Nem sei se é cansaço, as pernas estão pegando, senti câimbra... As pessoas falam que eu sou forte, mas eu não sou tão forte assim. Quero ver se eu consigo, vamos lá.
...
É mais subida e descida do que a gente pensa. Nunca andei tanto. Nunca vi tanta gente andando. Parece até a caminhada. Estou no quilômetro 32, com 3h33m. Na melhor das hipóteses, na maior das minhas ilusões, dos meus sonhos, eu terminaria em 4h33m. Mas acho que nem vai rolar, porque fazer a 6min/km daqui até o final vai ser difícil.
...
A gente só vê gente andando. Pensei agora como é que vai ser trabalhar amanhã. Estou quebrada, muito dolorida. A hora que esfriar, não quero nem ver. Dói pé, dói joelho principalmente, dói coxa, dói quadril, doem costas. E estou sentindo fome.
...
O sol foi embora, está um ventinho. O termômetro está marcando 31 graus ali.
...
(fiz o km 34 andando, em inacreditáveis 11m25s) Faltam 8 quilômetros para terminar e acho que isso foi a coisa mais difícil que eu já fiz na minha vida. Essa maratona foi difícil.
UM POUCO DE CONVERSA NA ALTURA DO QUILÔMETRO 35
(ouvindo a conversa de um corredor fazendo sua estreia em maratonas, com os amigos que davam apoio)
- Vamos lá, Marcão: 500 metros andando, 500 metros correndo.
- Eu juro que estou tentando fazer força – disse o ofegante Marcão.
- Yara, acho que você vai ter que ir com o Marcão até o fim.
(Eles foram, eu fiquei).
...
(agora conversando com um curitibano, sentindo o vento forte e percebendo a tempestade que começava a se formar, quilômetro 36)
- Vem chuva por aí.
- E não é das fracas – sentenciou ele.
- Queria estar terminando agora, com 4h17m. Fiz o que pude – disse bastante desanimada.
(Esse trecho foi bom, a conversa distraiu: falamos do clima, dos 600K, de outras maratonas. Desta vez fui eu quem acelerou, com medo da chuva).
VEIO CHUVA, MUITA CHUVA
(água de todos os lados, quase não dava para enxergar. Fiquei um bom tempo só me preocupando onde pisar, mas também curtindo aquela sensação boa de correr em plena tempestade. Voltei à realidade quando ouvi alguém dizer “Vamos pessoal, falta pouco. Agora só 3 quilômetros”)
3 quilômetros, uma volta no lago do Ibirapuera. Eu consigo.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 10h15
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é estar entre o trágico e o mágico... (final)
A RETA FINAL
(me agarrei à força de alguém que estava nas mesmas condições que as minhas. No último quilômetro troquei mais algumas palavras com outro corredor curitibano, desesperada para ver o pórtico de chegada. Faltando uns 200 metros, graças a uma logística perfeita da minha amiga Giovanna, vejo o Antônio, meu filho, que vem de mãos dadas comigo).
- Antônio!!! Desculpa, a mamãe não conseguiu fazer o tempo que eu falei para você que ia fazer. Foi muito difícil. Doeu o joelho. Mamãe correu 42 mil metros em quase cinco horas!
- O pai do meu amigo fez em 3h45m.
- Muito bom!
- Quanto você fez?
- Agora estou com 4h57m.
...
(cruzamos a linha de chegada, pegamos a medalha, recebemos os parabéns e continuamos a conversar)
- Onde está doendo, mãe? Eu não vi você no quilômetro 30, achei estranho. Todo mundo conhecido já tinha chegado, menos você...
- É que foi muito difícil para a mamãe, filho.
- Mas você não desistiu. Por que você não desistiu?
- Ah, filho, nem passou pela cabeça desistir.
- Onde você estava com 4h09m?(esse era o tempo que eu pretendia fazer e que falei para o Antônio)
- Com 4h12 de prova eu estava no quilômetro 36.
- A Giovanna disse que viu muita gente parada ali.
- Pois é, tinha muita gente andando, nunca vi tanta gente andando.
- Eu também. Acho que você completaria em quarto, em terceiro ou segundo se fosse uma Meia. De 10K podia ser a primeira.
- Já imaginou o que é a Comrades? O dobro disso aqui...
- Quanto é a Comrades, mesmo? 84K? Seu amigo já fez três vezes, né?
- Na Comrades são 89 km.
- Pelo menos você não foi a última, ainda tem muita gente chegando. Tem milhões de pessoas correndo aqui.
...
(mais adiante, registrando no gravador as impressões finais...)
Eu sei que acabou! Acabou a Maratona. Estou aqui com o Antônio, estou muito dolorida. Está doendo tudo, especialmente o joelho. Estou um pouco decepcionada com meu resultado.
(risadas do Antônio interrompendo)
- Ela tá feliz!
- Estou feliz porque completei pelo menos.
- Ela não está triste, não!
...
E essa foi a saga da Maratona de Curitiba. Levei algum tempo para escrever por falta de tempo - ou quem sabe receio de reviver a experiência. Vi o quanto sofri (minha voz em vários pontos é mesmo de sofrimento), mas vi também o quanto me deliciei, principalmente com esse momento final, com meu filho. Essas emoções ficam marcadas na vida da gente para sempre. Imagine ele daqui alguns anos lembrando que, aos 8 anos, esteve com a mãe na reta final de uma maratona, dizendo palavras do mais puro incentivo, sem saber formalmente o que é isso. Ah... É uma experiência incrível.
A maratona cobrou sua conta. Estou com uma pequena lesão (uma tendinite de quadríceps), mas já sonho com as próximas. Cada uma é cada uma.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 10h13
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... está chegando a hora...
São 6h30 da manhã, malas prontas, rumo à Curitiba.
Passei aqui rapidinho só para deixar algumas sensações registradas.
Estou ouvindo a "minha" música Viva La Vida (duas, três, quatro vezes...), que marcou minha Maratona de Nova York 2008.
Um ano depois sei que sou outra, a Maratona é outra, mas a emoção é a mesma.
Será minha terceira Maratona. Já não tenho o medo da primeira, em Porto Alegre, nem a insegurança da segunda, em Nova York, em um outro país...
É uma mistura de sensações: frio na barriga (sempre bom), certeza de que farei o melhor, confiança no que treinei, empolgação por encontrar antigos e novos amigos e feliz igual criança.
Amo muito tudo isso.
Bom, é isso. Mando notícias assim que puder.
Ah! Estou muito feliz também por poder estar com meu filho nessa viagem. E pela possibilidade dele me acompanhar ao longo da maratona (graças a ajuda preciosa de uma amiga querida), em vários pontos do percurso, para me dar um sorriso e dizer "vai, mãe!"
Motivador e emocionante...
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 06h48
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... estou às vésperas de minha terceira maratona...
O meu primeiro semestre, treinando por conta, resolvendo algumas pendências pessoais, foi bem devagar de desafios.
Em compensação, o segundo semestre bombou. Voltei a treinar em equipe, participei dos 600K da Nike e me propus a correr a Maratona de Curitiba.
A ideia de correr essa prova veio em agosto. Em setembro, fui uma das primeiras a me inscrever - ainda que pensando que "se não fosse possível ir, tudo bem"...
Fui treinando, o tempo foi passando e... chegou. Faltam três dias.
Se eu estou ansiosa? Sim, um pouco. Mas mais pela viagem.
Em relação à distância, 42K, é estranho - e talvez prematuro - dizer, mas me sinto íntima. Mesmo só tendo corrido duas até hoje.
Sei que tem o bendito Km 30, que tem o calor (a previsão é de um dia quente em Curitiba), que o percurso é difícil (um amigo de lá disse que por volta do km 35 existe uma sucessão de subidas - e nas palavras dele "ninguém merece!").
Sei de tudo isso. E não me pergunte de onde eu tiro ânimo e alegria para enfrentar tudo isso, com a vida corrida que eu levo. Mas sei que tiro.
Acho que são esses desafios que me alimentam. Então, vou me fartar em Curitiba.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 08h07
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... emoções que vão ficar para sempre...
600K: uma das coisas mais emocionantes que já vi e vivi.
De arrepiar.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 12h19
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... o futuro é o passo à frente...
No sábado passado fiz um treino de duas horas na USP, com o corpo ainda reclamando do esforço nos 600K.
E encarei por duas vezes a subida da Biologia. Mas comecei a pensar em jeito de vencer o tão temido e terrível trecho.
Sei que ao correr temos que olhar para frente. Só que ali - e em toda subida que encontrar pela frente a partir de agora - meu olhar será para o próximo passo. Sim, porque numa subida o futuro é o próximo passo.
Não me iludo pensando que o trecho é fácil. Sei que ali existe uma elevação, não nego isso. Porém a vitória vem passo após passo.
Quando a gente vê, chegou lá em cima.
Quantas e quantas vezes na vida o futuro também não é o passo à frente?
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 01h07
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... faz um ano da minha Maratona de Nova York...
Em clima de Maratona de Nova York, vale a pena ler de novo...