... eu posso...
Estou correndo o Desafio dos 600K da Nike, indo de São Paulo até o Rio de Janeiro. Nesse momento estou em São Sebastião. Já foram cerca de 200K. E amanhã, o que todos dizem, vai ser pedreira. Pela Rio-Santos, serão mais cerca de 200K, com parada em Angra. Estou entre os melhores atletas amadores de todo o Brasil. Gente que faz 3 minutos e pouco por quilômetro. E isso aqui é uma competição. Todo mundo quer se dar bem, individualmente e em grupo. Mas eu sou uma pessoa e uma corredora normal, que com esforço chego perto dos 5 minutos por quilômetro. OK, estou na equipe imprensa que tem, digamos, algumas "regalias" - como por exemplo 13 atletas -, mas tenho que me superar como uma pessoa e uma corredora normal. Meu trecho de estreia na prova aconteceu ao meio dia, no asfalto. Um retão sem tamanho, com uma leve subidinha. Pouco mais de 7 km. O calor, porém, matador. E eu fui lá e fiz. Penando, claro. Mas fiz. Cabeça trabalhando a favor o tempo todo, mesmo com o cérebro quase derretendo. Numa certa altura, um outdoor de uma operadora de telefonia celular, parecia ter sido colocado ali na estrada especialmente para mim. Dizia: "EU POSSO". Li, repeti em voz alta e toquei adiante. Sabia que teria mais um trecho logo a frente, felizmente com um bom intervalo para me recuperar. Às três e pouco da tarde, renovada - ou algo próximo à isso, já que andamos em uma van, com os os outros integrantes da equipe, com sanduíches, bebidas, mochilas - lá fui eu de novo. Mais um trecho de 7 km, na praia de Boraceia. Outro retão. Praia quase deserta, apenas uma ou outra figura - uma delas uma espécie de "guru" fazendo meditação à beira mar - e eu. Uns urubus mais ali na frente. E lembrei do que alguns amigos me disseram: não se preocupe com seu tempo, faça o seu melhor, mas aproveite a prova. E ali eu corri com o coração. Feliz. Fiz o meu melhor, mas também aproveitei a paisagem. Corri pela praia e depois um trecho de terra. Fui bem melhor do que o primeiro trecho.
Não sei nem como estou com cabeça pra escever agora, poucas horas de sono, muitas horas na van, com alguns momentos de corrida intensa. Não sei se faz algum sentido o texto. Mas queria deixar registrada algumas impressões.
Escrito por Yara Achôa, jornalista às 22h51
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